Home / Educação / Por que Paulo Freire, 29 anos depois?

Por que Paulo Freire, 29 anos depois?

O último livro do professor Carlos Rodrigues Brandão, que foi publicado em 2021, tinha como título “Paulo Freire, tantos anos depois”. Uma obra fundamental para uma percepção ampla e fundamental sobre a importância do patrono da educação brasileira. Destaco especialmente o capítulo “Algumas ideias de vocação freiriana (freireana) para pensar uma outra educação”, que sempre recomendo e leio com meus alunos e alunas.

Tomo por empréstimo a ideia do título do livro, meio que plageando-o eticamente neste ensaio. Hoje, 02 de maio de 2026 faz 29 anos da morte de Freire. Ele vem sendo constantemente atacado por setores sociais, que particularmente tenho dificuldade de nomear. Em 2024, eu e meu grande amigo Sidnei Ferreira de Vares lançamos um livro (Desconstruindo o lugar-comum sobre Paulo Freire), quando elencamos dez opiniões sem fundamento atribuídas a Freire. Doutrinador, comunista, razão do fracasso da educação brasileira, por aí vai…Exatamente este último lugar-comum apareceu novamente nas redes sociais recentemente. Não posso deixar de me remeter ao que dizia o professor Milton Santos em uma de suas mais brilhantes obras (Por uma outra globalização), quando apontava os efeitos perversos da globalização neoliberal. Um deles, o empobrecimento intelectual/cultural, que nem sempre a escola dá conta de reparar. Ao contrário, muitas vezes ajuda a reproduzir.

Daí apontar as razões pelas quais Paulo Freire é fundamental para pensar, como diz Brandão em seu livro, “a quem serve a educação”. Penso imediatamente em esclarecer alguns aspectos importantes, talvez os mais destacáveis, da relevância do pensar educacional de Freire. O primeiro deles é o fato de que sua obra, que passou por diferentes formulações, se inscreve num campo teórico progressista, iniciado a meu ver, com a defesa da educação pública pelos signatários do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. Em que pese o caráter liberal, ingênuo, do otimismo pedagógico daqueles idos do início do século passado, há que se reconhecer no movimento uma primeira tentativa de ampliar o debate pedagógico para além do modelo tradicional. Freire muitas vezes foi associado a esse movimento, acusado de liberal. Depois, quando da sua participação como colaborador no ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), foi tido como populista-desenvolvimentista. Mas ali entre os pensadores do ISEB, Freire assimila boa parte das inspirações filosóficas provindas do personalismo, do existencialismo cristão e, posteriormente do marxismo. Os marxistas mais “ortodoxos” passaram a nele perceber um “não marxismo”, uma dificuldade em incluí-lo no “seleto grupo” dos eleitos desta expressão filosófica. De fato, Freire tinha lá suas dificuldades em se auto classificar como um marxista de carteirinha. A questão é se haveria essa necessidade. No final de sua vida, educadores estadunidenses passaram a aproximá-lo de uma das tendências marxistas, a da teoria crítica da sociedade, considerando-o o “pai da pedagogia crítica”.

Classificações à parte, o que interessa destacar no momento é o que é e o que não é de Freire. A criação do método de alfabetização de adultos – em muito relacionado a experiências de educação popular desenvolvidas por setores da igreja católica do Nordeste – aparece em primeiro plano. Não se trata apenas de um método de alfabetização, mas um método de conhecimento. Um dos motivos para valorizar sua proposta de educação ainda hoje se relaciona a este deste destaque. A escola brasileira, a despeito do que dizem os incautos, nunca se apropriou desse “método”. Conhecer implica relacionar-se e compartilhar experiências de conhecimento. Reforçando, não apenas um método a ser aplicado à educação popular ou de adultos, mas que pode inspirar práticas e projetos na educação escolar. A criação de conhecimento está ontologicamente vinculada à experiência humana, sendo sua constituinte. E a escola é um dos espaços sociais onde, pela sua própria finalidade, essa criação ocorre.

Outro aspecto. Educação é processo, nunca métrica reguladora, como propõem as pedagogias utilitárias, como a chamada pedagogia das competências e habilidades, modelo exportado nos anos 90 e que serve aos interesses de grupos que apregoam a transferência das responsabilidades públicas ao setor privado. Tal discurso tornou-se hegemônico, chegando ao absurdo de utilizar pressupostos freireanos para sua justificação. Paulo Freire nada tem que ver com essa concepção de educação. Não é um educador do mercado, mas da cidadania política, da emancipação humana por meio da ampliação do universo cultural que a escola deve sempre promover. Não quer dizer que despreze o direito à formação profissional e ao desenvolvimento econômico, mas os veja inseridos em uma finalidade maior. Neste universo cultural se insere a consciência política. É o desenvolvimento humano, nos lembra Brandão, e não o desenvolvimento econômico a prioridade de uma educação pública. A maneira de promover, “metodologicamente” esse desenvolvimento é o diálogo qualificado. A escola brasileira carece de tal “referencial teórico-metodológico”. Ela está, infelizmente, ainda colonizada pelo tecnicismo, pelos apelos antidemocráticos, por ideias de desenvolvimento biologistas e por cálculos matemáticos que juram apontar para um modelo de desenvolvimento econômico.

Do ponto de vista de uma construção em processo, todas as expressões culturais devem ser consideradas. O Brasil é um país extremamente rico neste aspecto, mas a escola brasileira ainda reproduz modelos pedagógicos homogeneizadores, currículos engessados, avaliações metrificadas, a partir da cópia de experiências de fora que nada têm que ver com nossa realidade histórico-cultural. Aqui ainda prevalecem assimetrias econômicas, desigualdades, o racismo estrutural, uma exclusão permanente, a privação de direitos fundamentais, injustiças de toda ordem. Temos “matéria-prima” (se formos utilizar termos mercadológicos) suficiente, inclusive para além de Freire, como Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Dermeval Saviani, impactantes intelectuais da educação brasileira, quase sempre ignorados à direita e à esquerda. Neste aspecto, Freire e estes outros intelectuais também não possuem nenhuma relação com fragmentarismos e subjetivismos exacerbados. São ao contrário, universalistas e defensores das metanarrativas. Por vezes Freire é relacionado a movimentos educacionais que o relativizam como intelectual moderno, colocando-o em discursos duvidosos sobre o que é o chão da escola. Nem tudo está lá, como dizem. É preciso intervir, disputar politicamente –  respeitosamente -, convencer, (como dizia Freire no livro “Uma Escola chamada Vida”). Desconhecer tal verdade, claramente exposta nas principais obras de Freire é distorcer sua abordagem. Como costumo dizer, ele está situado numa “fronteira epistemológica” entre a fenomenologia e o marxismo, preocupado ao mesmo tempo com o debate ontológico sobre o ser em sua especificidade/coletividade e a preocupação com o “ser social”, o plano da dignidade no âmbito histórico-político-cultural. Certamente os autênticos “freireanos” estão sempre abertos a ouvir. No entanto, não suportam a presunção de conhecimento, os enclausuramentos em “clubes epistemológicos”, inclusive os feitos em nome de Freire. O bom relacionamento entre os diferentes/próximos (ou não) é fundamental, na perspectiva dialógica de Freire. Mas é difícil que os freireanos se convençam sobre a postura dos que julgam, à luz de suas referências, saber o que, aos seus olhos, já está dado na realidade da escola. Esses rostos e suas certezas não os convencem. Querem mais.

Nossa escola quase nunca se preocupa com a beleza da vida. A beleza do respeito ético às diferenças, inclusive. A dificuldade do ouvir e de garantir o direito à fala, sobretudo em um atual contexto complexo de embate entre a precariedade da defesa da “liberdade de expressão” (essa que os promotores da mentira utilizam com frequência) e as garantias a uma fala qualificada, ligada à verdade, para o bem coletivo. Ou seja, a garantia da sociabilidade em termos cordiais, para ampliar a existência e permanência da vida em sua bela diversidade humana e não humana.

Não à toa, quando perguntado sobre como gostaria de ser lembrado, em sua última entrevista, Freire disse que queria ser lembrado como alguém que amou as pessoas, os bichos, a vida…É a capacidade de olhar ao redor, para perceber os pássaros, as borboletas, as siriemas, os córregos e rios que inundam e provocam tristeza. Neste aspecto há muitos aliados em nosso entorno, educadores, alunos e alunas que cotidianamente nos alimentam com amor, carinho, respeito e até mesmo com as contrariedades da vida, tão necessárias a uma boa saúde mental (perceber que nem tudo está sob controle).

Enquanto continuarmos a “bater nas teclas” tão inoperantes, contrárias à verdadeira humanização – a que se dá com a contribuição da escola -, nos perderemos neste caminho tão bonito de sonhar sonhos possíveis.

Sobre José Renato Polli

Filósofo, historiador e pedagogo. Professor nos Programas de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Sorocaba (UNISO) e da Faculdade de Educação da Unicamp (FE-UNICAMP). Coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação Escolar - GEPHEES e Membro fundador do NEFAV - Núcleo de Estudos Freireanos Aldo Vannucchi (UNISO).

Check Also

PAULO FREIRE EM VIDA

Michael Apple já alertava em uma obra organizada conjuntamente com António Nóvoa (Paulo Freire: política …