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Discurso de posse na Academia Jundiaiense de Letras – 29.03.2025 – Biblioteca Municipal Prof. Nelson Foot

Esclarecendo…

 

O grande filósofo, professor Leandro Konder, propôs em sua autobiografia dois apontamentos que julgo fundamentais para o exercício da vida pública, o convívio social e a atuação intelectual. Primeiro que todos nós homens e mulheres, somos “homens (e mulheres) burgueses”. Não é possível escapar à realidade de que nos constituímos como esse tipo de seres, mesmo a ele contestando. Da mesma forma, as instituições. Elas não podem se elevar acima da realidade mesma em que nos inserimos, como se estivessem distantes do fato de que vivemos em um mundo capitalista, em que valores como a competição, o individualismo, as idiossincrasias humanas todas se potencializam.

Particularmente sempre tive desconfianças profundas de todas as instituições às quais me vinculei. A igreja, a escola, os sindicatos, os partidos políticos, as universidades, os espaços de cultura. A igreja pelo fato de que o conservadorismo ainda grassa em suas fileiras. Nem por isso abdiquei do cristianismo. A escola porque ela é atravessada pela ideologia do mercado. Nem por isso deixei de ser esperançoso em relação ao meu trabalho e ao dos meus colegas professores em direção a uma utopia humanizadora. Os sindicatos, porque a grande maioria dos seus militantes se acomoda no mundo da “luta em favor da causa”, dispensando-se da obrigação de estudar. Nem por isso deixei de militar e apoiar as causas da categoria dos/as professores/as e profissionais da educação. Os partidos políticos (já fui filiado a 4 deles no campo progressista), porque abrigam lutas intestinas, muitas vezes motivadas por personalismos e egoísmos. Mas continuo filiado a um deles, acreditando que só a luta política pode ensejar transformações possíveis nesse mundo social tão desigual. As universidades porque abrigam também muita vaidade e orgulho, pouca disposição para acolhimento do diferente teórico, gerando pequenezes inimagináveis para um ambiente intelectual sadio. Nem por isso deixei de acreditar na pesquisa, na ciência e no esforço do aprimoramento intelectual como uma das formas de pensar e repensar a realidade. Os espaços da cultura porque também abrigam muitas vaidades, como se uns estivessem aptos para o reconhecimento como produtores de cultura e outros não. A velha antropologia sempre apontou que não há que desconsiderar a diversidade de experiências culturais. Nem por isso deixei de acreditar no poder da literatura, da música, da poesia, em mobilizar os corações em favor da solidariedade, da paz, do respeito mútuo e da construção coletiva de sentidos para a vida individual e coletiva.

Leandro Konder aponta também, de maneira muito sensível, o quanto é relevante conviver democraticamente com os contrários. Tendo sido ele um dos maiores autores marxistas brasileiros, soube demonstrar as falhas da esquerda brasileira em se ensimesmar, sua falta de abertura para olhar o que de coerência existe nos contrários, como se murros em ponta de faca fossem transformar a amálgama toda da consciência política. Paulo Freire insistia no diálogo possível entre contrários como mecanismo do avanço social e civilizatório.

É exatamente neste prisma, da minha liberdade de crítica e do reconhecimento do diferente, que sempre me coloquei. Com o tempo da maturidade, conta menos disputar opiniões e mais construir pontes possíveis. Não sei se consigo. Não me iludo quanto ao que não pode ser. Nem quanto ao que pode ser. Prefiro pensar nesta segunda perspectiva. E justamente por ela me movo nesta nova empreitada, após ser acolhido como membro da Academia Jundiaiense de Letras, uma instituição que se esforça, com todas as suas contradições internas, humanas, extremamente normais no jogo democrático, pelo avanço do horizonte da poesia e da literatura em Jundiaí.

 

 Eis o discurso

Muito bom dia. Agradeço ao presidente da Academia Jundiaiense de Letras,  Márcio Martelli. Ele é um dos meus antigos amigos, muito leal e generoso comigo, tem me ajudado muito, é uma honra tê-lo me apadrinhando. Além do que ele disse, quero falar, a partir da minha experiência, da relação entre trabalho, educação e cultura.

Eu nasci no dia 02 de Junho de 1962, no Hospital São Vicente de Paula. Estou prestes a completar 63 anos. Sou casado com a Andrea e pai da Manuela, que tem apenas 4 anos. Quando ela nasceu eu estava com 58 anos e 5 meses, o que indica que as nossas funções biológicas, minha e da Andrea, estão razoáveis. Já as minhas faculdades mentais nem tanto, sobretudo por desejar fazer parte de uma academia composta por pessoas tão distintas. E tão contraditoriamente humanas, como eu.

Eu nasci por causa do footing em torno da praça da matriz, nos anos 50. Meus pais se enamoraram e se casaram. Minha primeira moradia foi um antigo casarão da minha avó materna, Rosa Cassiano Spina, na rua Fortunato Mori, no bairro do Vianelo. Ali havia trabalho.

Meus pais eram operários. Ele, ferroviário, loiro de olhos verdes. Ela tecelã, cabelos e olhos pretos. Trabalhou inclusive aqui neste espaço nos anos 50, como grande parte das meninas jundiaienses de seu tempo. Tinha dupla jornada, na fábrica e em casa, já que minha avó era uma artesã que empalhava cadeiras com as fibras de taboa, naquela época em abundância nos brejos do Vianelo. Ele estudou no grupo escolar Conde do Parnaíba e era autodidata. Ela estudou no Siqueira de Moraes, hoje a Pinacoteca da Cidade. Na mesma década, apenas até o ensino primário, em duas escolas que ficavam nas pontas da mesma rua, sem se conhecerem ainda. Ela aluna de Elza Facca Martins Bonilha e ele aluno de Dinorah Portugal e Brandina Penteado, que era irmã de seu tio, Sebastião Penteado, ator jundiaiense. Professoras de renome na nossa cidade. Ali havia educação. Mas não para todo mundo.

Eu estudei na escola pública, mas fui iniciado nas letras pela professora Maria Aparecida Klinke, no antigo Sesi da Vigorelli, em 1969.  Por uma dessas mediações históricas possíveis, filho de operários, cheguei a 46 anos de atividades profissionais, 35 na educação. E me vejo hoje, diante de vocês, tentando proferir um discurso que seja minimamente coerente com o propósito deste evento.

Tenho de admitir que preciso aprender com vocês, membros da academia, em se tratando de poesia e literatura. Tento cultivar certa humildade, talvez. A sabedoria dos estoicos já nos advertia sobre o perigo do orgulho, ao ofuscá-la.

As pequenas vaidades existem, todos temos e isso é legítimo. Mas elas não devem nos consumir. A vida é um processo aberto e no vai e vem da história chegamos aqui, vivos, otimistas e esperançosos de que algo mais pode ser feito em favor de nossa humanização, ao tentarmos incensar um pouco menos o nosso ego e mais o espírito coletivo.

A sorte me conferiu a possibilidade de ocupar uma cadeira cuja patronesse é uma educadora e artista, Glória da Silva Rocha Genoveze. Ela era da Silva, como a Josefina Rodrigues, prima da minha avó e uma das fundadoras da academia. Como tantos brasileiros e brasileiras são Silva. Por coincidência, Glória Rocha foi professora na escola infantil da Argos, indústria em que minha mãe trabalhou e onde eu, posteriormente, também atuei, na hoje secretaria de educação. Por coincidência, uma das escolas da Rede Municipal de Educação leva seu nome. Por coincidência, como músico e compositor, pude me apresentar diversas vezes na sala que leva o seu nome, no Centro das Artes. A educação, o trabalho e a cultura conectados historicamente, por caminhos os mais diversos. Trabalho, que produz cultura e que enseja uma sociedade em que se educa. Buscar uma identidade cultural para a cidade, eis o desafio para a educação e para a cultura.

Há muitos silenciamentos em nossa história local. Jundiaí escolheu marcas culturais tidas como mais importantes, esquecendo-se de outras. Como as indígenas e africanas, sabidamente sustentadoras de um processo histórico altamente desumano. Algumas expressões culturais foram hegemonizadas e forjadas em uma dinâmica histórica desigual, para prejuízo de outras.

E aqui chego ao ponto da minha oportunidade de compor esta instituição cultural. Tenho profundo respeito pela sua história. Ainda mais porque foi construída por pessoas ilustres. Cosmovisões diferentes, claro, mas cidadãos de respeito e de destaque em nossa cidade.

Creio que o papel de uma academia de letras, independentemente do que fazem e pensam os membros que a compõem, sua profissão e visão de mundo, é buscar contribuir para com a construção de um processo democrático, inclusivo, contínuo e constante de uma identidade cultural para a cidade. E deste ponto de vista, talvez ajudar a refazer alguns passos do nosso discurso oficial, histórico, que enalteceu mais alguns atores e se esqueceu de outros. Há aqui uma gente diversa, uma gente trabalhadora, as mulheres, os jovens, os deficientes, as entidades da comunidade negra, as permanências indígenas. Será numa fraternidade possível que Jundiaí se tornará uma cidade de destaque. A identidade da nossa cidade, está por ser construída, penso eu. Faço votos de que a Academia e nós, os três novos acadêmicos, possamos contribuir neste aspecto.

Quero agradecer à Julia Heimann, ao Márcio Martelli, ao José Felício De Cezare, à Thaty Marcondes e a todos que torceram pela minha candidatura, pelo apoio e pela confiança. E à comissão que nos escolheu, pela deferência.

Para finalizar eu gostaria de parafrasear o grande cineasta Cacá Diegues, falecido recentemente, que quando assumiu como membro da Academia Brasileira de Letras disse:

“Para mim, a academia não é uma medalha de honra, uma coisa de vaidade. A Academia é um lugar de concentração de cultura, de proteção da memória cultural, mas, ao mesmo tempo, de provocação cultural, ou seja, de você criar elementos que permitam à cultura brasileira se desenvolver. É isso que eu vou tentar fazer.” Dizia ele.

E é isso que tentarei fazer em relação à nossa identidade cultural. Digo eu.

Muito obrigado.

Sobre José Renato Polli

Filósofo, historiador e pedagogo. Professor nos Programas de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e da Universidade de Sorocaba (UNISO).

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