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ONDE ESTÁ MEU CORAÇÃO

Onde está, onde esteve e onde estará meu coração, lá eu estarei. Ele estava no ventre da minha mãe, entre setembro de 1961 e junho de 1962. Ali batia para a vida que me espreitava. Quando nasci, meu coração estava na casa da minha avó materna, naquele quarto dos fundos onde meus pais iniciavam sua caminhada. Entre 1964 e 1965 meu coração estava naquela casinha, que com muito custo, meu pai construíra para ganhar certa independência na vida. Quando eu caí do berço ele chorou. Por causa do seu coração. Quando eu brincava com uma amiguinha, filha do amigo do meu pai, ali estava meu coração. Eu pegava uma violinha de brinquedo e “tocava” “trem das onze”, dos demônios da garoa, porque ali estava meu coração. Sem condições de pagar as dívidas pela aquisição da casa, meu pai a vendeu e voltamos para o bairro de origem, numa pequena casa que comprou com as sobras que juntou. Ali, sem que muitas memórias se avolumassem, estava meu coração.

Foi preciso vender a casa, de novo, para economizar em direção a novos sonhos. Fomos para aquele porão, que juntava um quarto adaptado e uma cozinha, que era na verdade uma garagem. Ali estava meu coração. Emocionei-me quando ganhei a grande bola colorida no palito de sorvete premiado. Ali estava meu coração. Certo dia, fui à mercearia e já pequeno sentia algo de amor por cachorros. Fui acariciar um deles, na rua, levando uma mordida no pulso. Ali estava meu coração. O gosto pelos cachorrinhos me perseguiria vida afora, mesmo que deles eu tivesse medo. Porque ali estava meu coração.

Quando subia o morro para ir à escola receber as primeiras letras, ali estava meu coração. A professora, ainda viva, está no meu coração. Meu pai trabalhava duro, fazia bicos nos finais de semana. E meu coração estava com ele. Minha mãe, sempre ciosa, deixava tudo “brilhando”, e seus olhos enchiam de brilho diante de uma pequena coleção de bibelôs. Um sonho terrível com um gorila me assustou enormemente. E ali estava meu coração. Ao ouvir pela primeira vez uma música dos Beatles, em 1969, “Hey Jude”, ali estava meu coração. Minha mãe tinha um velho e surrado rádio vermelho com aqueles botões enormes de girar, para selecionar as estações. Nesta memória está meu coração.

Com alguma sorte, a conquista de um pequeno lugar ao sol, em um bairro distante, sem nenhuma infraestrutura, dava sentido a tantas lutas anteriores dos meus pais. Fomos morar na região onde vivi dos 8 aos 32 anos de idade. E ali estava meu coração. Na escola onde estudei, na relação com amigos e professores, todos pessoas humanas e contraditórias, estava também meu coração. Quando durante décadas eu frequentei a paróquia do bairro, fazendo boa parte dos meus melhores amigos, até hoje, ali estava meu coração. Quando me encantei, naquele ambiente, com a possibilidade de tocar um instrumento, ali estava meu coração. A amizade com a Santa que dá nome à paróquia se estende até hoje. E com ela divido meu coração.

Adolescente, aquela marca do cachorrinho que me mordera no passado ainda estava em mim. Queria tanto ter um cachorro! Até que minha mãe aceitou acolher uma linda cachorrinha. Ela não gostava muito de animais. Coloquei naquela relação todo o meu coração. Mas foi por pouco tempo. Minha mãe, sem consciência do que fazia, deu embora aquele meu amor. E na dor daquela perda estava meu coração. Ela também “jogou fora” minha coleção de geodos e rochas semipreciosas que eu colecionava com amor. Meu coração se despedaçou nos dois episódios. Foram perdas, mas meu coração permaneceu intacto.

Em todos os ambientes de trabalho, dos 14 anos em diante, antes de tomar outro rumo na vida, encontrei muitos amigos e pessoas a quem admiro e admirava. Ali estava meu coração. Perambulando por várias escolas, enfrentando as pedagogias da repetência, procurava deixar, em cada lugar, um pouco do meu coração.

Em todos os amores, todos os namoros que tive, deixando as marcas e as levando, fruto de minhas fraquezas humanas, sempre estava presente meu coração. Errei, acertei por algum tempo, mas nunca sem meu coração. Foi então que decidi ingressar no seminário. Ali encontrei muitos amigos sinceros e perenes, vivi uma vida que não tinha em casa. Aliás, pela primeira vez eu saia de casa, aos 23 anos. Colocava naquela escolha, todo o meu coração. Com todas as críticas, amei e admirei muitos daqueles com quem convivi, alguns permanecendo até hoje em meu coração. 

Quando decidi abandonar a vida religiosa, o fiz porque meu coração (e minha razão) mandou. Mas ficou o gosto pelo conhecimento, aquele que me negaram com tantos anos de repetência escolar. Voltei ao mundo do trabalho, ingressei numa universidade, fui cursar filosofia. Ali coloquei todo o meu coração.

Abracei a música junto com alguns amigos. Durante uma década fizemos desta arte nosso entretenimento maior. Ali estava meu coração.

Depois de formado, abandonei o trabalho e, seguindo o meu coração, fui ser professor de escola pública, quando por 11 seguidos anos coloquei todo meu coração no que fazia. Nas lutas, no envolvimento político. Ali estava meu coração.

Me casei em primeiras núpcias e sem nenhum demérito para o que vivi, ali coloquei meu coração, errando e acertando. Sofri as dores do mundo, mas nunca sem deixar de lado meu coração.

Continuei os estudos, me aprimorei, fiz carreira e hoje tenho um saldo de tantas décadas ajustando meu coração nas searas da educação. De tantos rostos de alunos e alunas, seus olhares brilhantes, ficaram as marcas em meu coração. Assumi tantas responsabilidades, sempre nelas movido pelo meu coração.

Quando perdi meus pais, em épocas diferentes, coloquei em mim a preservação da memória deles, com todo o meu coração. Escrevi sobre eles, honrei seus nomes com muito amor. Me vi perdido em outro momento afetivo, o sentimento de abandono me atormentava de novo. Fui acolhido pelos fraternos que não se esquivam de seu amor. Sobrevivi, enfrentei duras batalhas. Superei todas.

Veio o amor verdadeiro, que encontrei pelos caminhos da vida. Ela é meu porto seguro, meu sustentáculo humano. Cheios de medos, de inseguranças e falhas, tentamos seguir humanamente nosso caminho. E nessa relação coloco não apenas meu coração, mas toda a minha razão. Veio um outro grande amor, a minha filha. Realização de um sonho antigo. Na última semana fiquei paralisado olhando para ela durante alguns minutos. Ali estava o meu coração. Com medo de perder aquele olhar.

Quando vivi momentos difíceis de quase morte, logo após o nascimento da minha filha, ali estava o meu coração. Uma embolia pulmonar não conseguiu derrubar tanto amor em mim. Não sei até quando, mas sigo meu coração, com todo o amor pela vida.

Estamos chegando no feriado da Páscoa. Sensibilidades as mais variadas invadem meu coração. Uma conversa longa com as minhas alunas, da minha classe predileta, encheu em mim o sentido do amor humano, fraterno. E ali estava o meu coração. Sim, vale a pena viver tudo o que há para viver, como diz a canção. As dores e as alegrias, as angústias e incertezas, os medos e as confianças. O que nos humaniza, sempre, é onde colocamos o nosso coração. O meu sempre esteve aqui, no meu peito, aberto ou fechado, mas sempre presente. Procurei colocá-lo em todos os momentos até hoje vividos. E tenho gosto de quero mais. E, por fim, quando penso na Páscoa, sinto-me compelido a alimentar em mim a busca pelo sonho de Jesus, de que possamos enquanto pessoas e enquanto humanidade, viver a vida boa e plena, a boa nova que anuncia que podemos ser mais, menos presos às mesquinharias da vida, aos apelos de poder, de conhecimento, de acúmulo material.

Amor pelo diferente, pelo pobre, pelo LGBTQIA+, pelas mulheres oprimidas, pelas crianças abandonadas, pelos irmãos em situação de rua, pelos trabalhadores explorados, pelos que sofrem os efeitos do racismo estrutural, pelos alijados de todos os direitos sociais fundamentais. Neste amor identifico o sonho de Jesus. Minha prática concreta em direção a este amor é clara, cristalina, no meu esforço profissional cotidiano, na seara dos mestres artesãos da educação: ajudar a humanizar e se humanizar. Nada de abdicar de condições necessárias à profissão, mas nada de substituir o objetivo principal, de humanizar, por discursos tecnicistas sem amor, sem consideração pelas vivências alheias, sem calcular os efeitos perversos das cobranças infindas e desnecessárias, próprias da saga ideológica do neoliberalismo.

Sigo tentando me equilibrar no amor, abraçando o cristianismo de forma esclarecida. Estudei o máximo que pude, histórica, filosófica e teologicamente, a esta expressão religiosa. Não sei muita coisa. Cristianismo que sofre preconceitos ainda hoje, mas que foi hegemônico para domínios culturais, que protagonizou desumanizações, que se romanizou, que se ensimesmou em rituais frios e distantes da realidade. Mas o sonho de Jesus escapa a tudo isso. Com um pé em um marxismo cristão, sigo a linha de reflexão que indica que o preconceito não foi criado por Marx. Pois a religião “é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração”. 

Fico emocionado com figuras singulares do cristianismo, especialmente do catolicismo. Francisco é para mim a figura maior. Tantos como ele perseveraram no sentido de uma humanização em curso. Talvez até exagerando na autodiminuição. Mas quem sou eu para julgar?

Sou grato pelo que tive, pelo que tenho e pelo que terei, ainda, quem sabe. Aos amigos que cultivei, aos que me ajudaram a ser o que sou, aos meus pais, aos meus irmãos, minha família, a todos os que compõem a minha árvore genealógica. E que meu coração continue onde sempre esteve, em um lugar de primazia sobre a razão, mas muito próximo dela. Ando meio assustado com o avanço da velhice e seus desdobramentos, meus medos são circunscritos na materialidade. Mas o amor não. Meu coração sempre esteve comigo, felizmente, transcendentalmente.

Feliz Páscoa!

Sobre José Renato Polli

Filósofo, historiador e pedagogo. Professor nos Programas de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Sorocaba (UNISO) e da Faculdade de Educação da Unicamp (FE-UNICAMP). Coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Educação Escolar - GEPHEES e Membro fundador do NEFAV - Núcleo de Estudos Freireanos Aldo Vannucchi (UNISO).

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