Uma pizzaria. Existe local mais adequado para uma celebração? Talvez aos olhos de apreciadores de outras culinárias, sim. Mas para um inveterado devorador de massas, a escolha não poderia ser melhor.
Os ambientes de trabalho são propiciadores de muitas experiências relacionais. Eu, particularmente, iniciei minha jornada laboral aos 15 anos. Primeiro, no antigo escritório Rosário de Contabilidade, do saudoso Arnaldo Levada. Depois, no Banco Real, que ficava bem ali na esquina em frente ao Solar do Barão. Mas depois de dois anos de desemprego, meu pai me arrumou um outro no Banco América do Sul. Ele era um dos primeiros correntistas. E aqui começa a história do nosso reencontro. Aquele banco foi um ambiente no qual gostei de estar. Por diversas razões. Foram muitas vivências para o meu crescimento pessoal. E realmente cresci, soube conviver com as contrariedades, admirei pessoas, sofri. Mas tanto eu como os demais colegas, sobrevivemos. Era ali, ao lado da galeria Bocchino, dois andares. Depois a agência mudou para a rua Rangel Pestana. Permaneci mais dois anos. Foram três e meio no total, mas o suficiente para me ver como um jovem em evolução. Normalmente eu sabia conviver com a autoridade, me colocava nas relações de forma até meio tímida. Mas aos poucos tudo muda. Fiz uma opção, depois, por seguir outros caminhos, talvez motivado por incompreensões pessoais, valores com os quais não mais comungo, certos exageros interpretativos sobre o que é a vida. Hoje, mais leve e solto, pude voltar a ver alguns daqueles amigos, algumas daquelas amigas, e me sentir bem.
Uma noite memorável. Pessoas de perfis totalmente diferentes. Ninguém se preocupou com o velho dito popular: “futebol, política e religião não se discutem”. Nada sobre esses temas, apenas o gosto gostoso de estar com pessoas a quem admiramos, independentemente de posições pessoais sobre isso ou aquilo.
São mais de 40 anos de distância daqueles vividos por nós. Alguns se conheciam bem, outros nem tanto. A conversa fluiu. Lembramos de casos, causos, situações, pessoas. Demos muitas risadas. Surpreendemo-nos com o que foi vivido depois, por cada um de nós. As perdas, as conquistas, as mudanças de visão de mundo, as dificuldades naturais que todos nós enfrentamos.
Interessante notar que este respeito mútuo cresce com o tempo. Não estamos mais interessados em comparar nossas percepções uns sobre os outros. Podem até estar registradas nas memórias eventuais impressões, mal-entendidos, marcas de sofrimentos, mas também de alegrias. E tudo isso é efêmero diante do dom da vida, que segue seu fluxo na esteira da nossa humanização, nosso aprimoramento humano. Já não somos mais o que éramos há 40 anos. A maioria de nós ultrapassou a barreia dos 60 anos. Não teve necessidade de receios, medos, vergonha. Tudo está limpo e cristalino na existência de quem vê o mundo com as lentes do amor. Sempre há espaços para a consideração, o perdão, a solidariedade.
Entre uma garfada e outra naquelas saborosas pizzas (eu, particularmente adoro a tal da Marguerita), escorregavam palavras de carinho, lembranças, risadas espontâneas. Entre os meninos, falamos muito sobre causos, os amigos que já se foram, os acontecimentos engraçados, as viagens, as novas situações de trabalho. Percebemos até o inusitado de algumas conexões entre experiências que se cruzaram de alguma forma.
Não ficamos apenas no clube do bolinha. Levantamos, fomos ao lado das meninas, contamos das aventuras da vida, tiramos fotos para a posteridade, combinamos novo encontro. E tudo foi muito bom. Minha noite de sono não foi lá essas coisas, talvez porque os ansiosos fiquem matutando sobre as coisas boas, o que foi e o que virá.
Os olhares estavam satisfeitos. Elza, Márcio, Zé Carlos, Sérgio, Sandra, Edison, Cristina, Vicente, Samira, Bete, Elisete, Irene, Lúcia e Célia. Agradeço a vocês por essa noite gostosa. Que venham mais encontros como esse, para que prossigamos nossa jornada nesse universo tão lindo que nos acolhe.
Virada Reflexiva Filosofia, reflexões, educação e política.