Da miríade de amigos que vamos cultivando ao longo da vida, muitos permanecem, outros seguem seu curso. Alguns se tornam os mais significativos, por razões das mediações históricas, situações de necessidade, reconhecimento sobre nosso valor, sem interesses de nenhuma natureza.
Por sorte da vida, eu estive envolvido com vários deles, na minha trajetória. Em cada uma das experiências e espaços de convivência, sempre houve aqueles e aquelas que marcaram minha vida de alguma forma, a maioria permanecendo comigo, mesmo com a falta de mérito da minha parte. Nunca me senti a última bolacha do pacote, merecedor de reconhecimentos ou apoios.
Poderia fazer uma lista de tantos amigos, como afirma Oswaldo Montenegro em uma de suas canções. Mas diferente do que ele sugere, nesta lista estariam todos os que permaneceram fiéis e que me ajudaram a melhorar como pessoa.
É bem difícil escolher amigos ou amigas e dizer quais deles são os “melhores”. Eu devo muito a vários, inúmeros. Não poderia me esquecer do César Nunes, do Pedro Bigardi, da Conceição Azenha, dos irmãos Edilson e Ednilson Graciolli, do Antonio Pupo, do Vanderlei Franzoni, da Angela Perobelli, do João Aguiar, do Rinaldo Varussa, do Jean Camoleze, do BA, do Jorge Oliveira, da Maria Silvana, do Eliezer da Rocha. Ah, me perdoem os demais, não tenho a intenção de esquecê-los.
O propósito desse meu texto é dizer que tenho dois amigos que estariam no topo da lista. Pelo menos devido a sofrimentos pessoais meus e pela perenidade de nossa amizade, a permanência constante, física e espiritual. Um deles, sem dúvida alguma é o Marcel Ercolin de Carvalho. O outro é o Sidnei Ferreira de Vares. E os motivos são bem parecidos. A fidelidade é o maior deles.
O Marcel eu conheci em 1985, quando eu era um jovem seminarista e ele um pretendente ao seminário. Viajamos para Roma juntos, para participarmos da Jornada Mundial de Jovens e ver o papa (hoje santo) João Paulo II. Mas nossos laços se estreitaram durante nossa carreira como professores de história. O Sidnei eu conheci em 2001, quando eu lecionava no Centro Universitário Assunção. Ele foi meu aluno nas disciplinas de Sociologia Geral e Sociologia da Educação, no curso de Pedagogia. A identificação foi imediata. Recentemente viajamos juntos para Portugal, em uma série de experiências culturais que deixaram saudades. E até mesmo alguns momentos de tensão, como a perda do voo de volta. Com o Marcel, são 40 anos de amizade, com o Sidnei, 25.
Esses dois foram meu esteio em momento de grande dificuldade. Por volta de 2008 eu estava vivendo uma grande tensão, com crise de pânico, dificuldades emocionais de toda ordem, dificuldades materiais, problemas de saúde que me dilaceravam, tensões no trabalho. E pude contar com a ajuda deles de forma decisiva, não com apoios ou palavras, mas concretamente. Marcel me ofereceu uma pequena casinha para que eu fosse morar, ali na sua própria chácara. Mais que isso, arcou com todos os custos da reforma do imóvel. Nuca dei essa informação de público, por privacidade e amorosidade. Mas ele fez a diferença na minha vida. Eu estava com muitas dificuldades financeiras motivadas por escolhas erradas que eu tinha feito. E aí entrou o Sidnei, me apoiando financeiramente. Sem o menor interesse, os dois foram os verdadeiros e mais presentes amigos deste período. Claro, outros e outras me apoiaram de outras formas, mas o impacto destas ajudas, oferecidas por estes dois irmãos de caminhada foi enorme. O contexto coincidiu com minha saída do Colégio Paulo Freire e a minha entrada na gestão municipal da educação. Foram longos 6 anos de reclusão, exílio espiritual e procura, naquela acolhedora casinha do Marcel, que me deixaram marcado por tantas sensações, pela saudade. E ambos nunca me cobraram um tostão, nunca pediram nada, não se preocuparam com o depois e sim comigo, verdadeiramente.
Escrevo este texto em momento de crise relativa. Crise da crença na autenticidade de todas as amizades. Crise porque, talvez, a idade esteja pesando e o sentido da finitude que se avizinha traga mais preocupações, sobretudo com a vida da minha filha e da minha companheira de vida.
Por vezes, a limpidez das amizades autênticas, aquelas que dão sem querer nada em troca, como a que estes dois amigos me proporcionaram, se reduz efetivamente a um círculo extremamente pequeno de relações. Como eu disse, eu devo tanto a tantos amigos, nos últimos dez anos, principalmente ao César e ao Pedro, que nem poderia comparar ou diminuir sua expressão em minha vida, em relação ao Sidnei e ao Marcel. São situações diferentes. Admiro a todos eles, amigos, amigas, aqueles e aquelas que também o são, mesmo não sendo tão próximos. Tenho também vários que se tornaram amigos e amigas mais recentemente, a quem atribuo enorme consideração, como o Thiago Rodrigues. Sempre fui grato, até mesmo com os ingratos e arrogantes.
E só posso lembrar a letra da canção, uma belíssima página da música popular brasileira, “Quem me levará sou eu”, de Dominguinhos e Manduka: “amigos a gente encontra, o mundo não é só aqui”. A vida vai rodando, eles e elas aparecem, alguns se vão, outros traem a amizade com devaneios pessoais, demonstração mais de interesses do que generosidade, com a incapacidade de conviver com críticas e limitações nossas. Mas a gente segue, com consciência tranquila.
E é exatamente quando desvelamos em nossa história as páginas de sofrimento, com reconhecimentos públicos, para enaltecer duas amizades sólidas, aquietamos o nosso coração, sabedores de que nem sempre haverá amigos assim. Alguns até nos ajudam em um momento ou outro, mas cobram lá na frente, como se fossemos seus devedores. A infantilidade emocional por vezes fala mais alto, a humildade desaparece com as cobranças eternas, mágoas insuperáveis, difamando e inventando verdades como se fossem o cerne da sua vida.
Mas esses dois amigos citados, são os mais sólidos porque nunca me cobraram nada, estiveram sempre dispostos a continuar ajudando. E sou grato à vida por tê-los na minha caminhada. E chego ao ponto de concluir que nem todos merecem a nossa amizade.
Estamos chegando a um momento especial, as comemorações do natal, o nascimento de Jesus, aquele que durante a sua pedagogia do caminho ensinou que devemos perdoar. Mas também disse que devemos sacudir o pó das sandálias diante das incompreensões, das autodefesas, dos afetamentos que desnudam personalidades. A amorosidade pela vida deve continuar, não devemos, além de perdoar, esquecer o que nos fazem. Mas como diz o filósofo, o importante é o que fazemos com o que nos fazem. Eis a minha elegia do natal do amor, inclusive do amor próprio. Sigamos, venceremos, como diz o Eduardo.
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